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HERDEIROS DO PORVIR
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Entrevista com o Príncipe Dom Antônio de Orleans e Bragança

Dom Antônio de Orleans e Bragança, terceiro na linha de sucessão ao trono, nasceu no Rio de Janeiro em 24 de junho de 1950. Formou-se em engenharia. Em 1981, casou-se com a Princesa belga D. Christine de Ligne, com quem teve quatro filhos. Artista nato, especializou-se em pintar aquarelas, retratando sobretudo o colonial brasileiro, e recebeu-nos gentilmente para esta entrevista.

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S.A.R. Dom Antônio de Orleans e Bragança

Quais as atividades que V. Alteza exerce na vida profissional, socialmente e em família?

No momento, na vida profissional, trabalho mais com pintura em aquarela; não mais estou atuando como engenheiro. Algumas vezes faço palestras, especialmente abordando questões monárquicas ou históricas. Com relação à família, conversamos, falamos sobre a formação católica e educação que devemos dar aos filhos, uma educação também voltada ao país. Ou seja, amor a Deus, ao próximo e ao país. Devemos estar sempre prontos para o serviço à Pátria.

Seus irmãos D. Luiz e D. Bertrand, a partir de São Paulo, e V. Alteza, no Rio de Janeiro, como têm trabalhado na divulgação dos ideais monarquistas? Que expectativas tem a Família Imperial quanto à possibilidade de uma restauração monárquica?

Tenho trabalhado, como D. Luiz e D. Bertrand, fazendo palestras e divulgando os ideais monarquistas em escolas, universidades, encontros monárquicos, exposições de minhas aquarelas, visitas a cidades, sempre em consonância com o Chefe da Casa Imperial. Com relação à expectativa de uma restauração, só Deus sabe quando ela se fará. Tenho muita fé em Deus e em Nossa Senhora que seja para breve. Sei que estamos chegando ao fundo do poço. A república está em seus últimos dias, levada pela própria degradação que trouxe ao país. Vejo nestas recentes manifestações anarquistas uma forte tendência à radicalização da esquerda, o que muito me preocupa. Tenho a certeza de que, para voltarmos à harmonia, a única saída seria o retorno à monarquia cristã e católica.

Gostaríamos de pedir que nos falasse sobre sua formação familiar. Como era, por exemplo, a vida da Família Imperial na fazenda de Jacarezinho? Que recordações mais o marcaram, dessa época, e que efeito tiveram na sua formação?

Foi uma formação maravilhosa, apesar de toda dificuldade. Não tínhamos eletricidade em nossa fazenda de Jundiaí do Sul e o médico ficava a duas horas, e isso quando não chovia... Uma vida com a educação acima descrita, mas com total liberdade. Saíamos o tempo todo a cavalo e apenas tínhamos os deveres da escola a cumprir. Os horários eram rígidos: café da manhã, almoço e jantar. Se chegasse atrasado, não almoçava. Dormíamos com os passarinhos e acordávamos com os passarinhos. A única escola em Cinzas era um grupo escolar. Os quatro primeiros anos do curso primário estudei em Cinzas e ia a cavalo. Para nós foi um aprendizado formidável. Aprendemos com nosso pai o que era certo ou errado. A principal linha de meus pais era a formação católica, espinha dorsal de tudo que fazíamos. Tínhamos a liberdade de sair a cavalo, mas sempre dizíamos para onde: “Vou para a fazenda, para a administração, para a cidade”. O bom desse quase isolamento na fazenda foi que a família ficou muito unida, num convívio muito intenso entre nossos pais e nós. Lembro-me de que muitas vezes saía com meu pai para ver o gado, as plantações, todo o desenvolvimento da fazenda, tanto eu quanto meus irmãos, algumas vezes a cavalo, outras no carro de meu pai, uma Rural Willys. Sinto pena de meus filhos porque não tiveram como eu a oportunidade dessa vida de fazenda. Outra coisa que aprendemos foi o respeito aos empregados, ao mesmo tempo que éramos respeitados por eles. Na época não havia rivalidade entre patrão e empregado. Os colonos eram considerados como que membros da família. Existia entre todos grande harmonia. Quando chovia, o carro atolava e chamávamos o trator para nos socorrer. Temos foto da Primeira Comunhão de D. Francisco: voltando para casa, o carro atolou e a roupa branca dele ficou toda suja de lama... Pescava com meus irmãos e colonos nos momentos de folga. Sempre tivemos o exemplo de nossos pais nas dificuldades econômicas, mas sempre com esperança e fé na Providência Divina. Era admirável a fé de minha mãe, que sempre dizia: “Deus ajuda as famílias numerosas. Apesar das dificuldades, Deus está junto e ajuda”. Meus cinco irmãos mais novos nasceram na fazenda e não em Casa de Saúde, graças à fé de meus pais. D. Luiz estudava nessa época na Alemanha, e quando vinha para a fazenda era uma grande festa. Tinha uma alegria contagiante e trazia presentes para todos, com aquela bondade que lhe é peculiar. Não foi muito correto de minha parte, mas quando eu estudava num colégio interno de Jacarezinho, simulei uma gripe para que papai me levasse para casa, pois estava louco para ver D. Luiz... Infelizmente logo tive que voltar ao colégio, mas só a felicidade de vê-lo por instantes valia a pena. Ele vinha uma vez por ano e para nós era verdadeiro júbilo.

Dos ensinamentos que recebeu de D. Pedro Henrique e da Princesa D. Maria, o que de mais importante procura transmitir para seus filhos?

A fé católica e o amor ao Brasil.

Também gostaríamos que nos falasse de D. Antônio como artista. Com que idade percebeu que tinha vocação para a pintura? Como é que desenvolveu suas aptidões nesse campo? Como adquiriu conhecimentos técnicos?

A vocação vem por si mesma. No meu caso, veio também pelo exemplo de meus pais. D. Pedro Henrique era um grande aquarelista e minha mãe fazia pinturas muito bonitas em porcelana. Meu dom veio naturalmente, não posso precisar a idade, mas se manifestou quando era bem pequeno e mais efetivamente a partir dos 14 ou 15 anos. Aprendi a técnica da perspectiva (tudo converge para o horizonte) com minha mãe. Depois fui desenvolvendo, aprimorando.

Qual o tema do primeiro quadro? Teve alguma hesitação, quanto ao tema e ao estilo a adotar?

Não me lembro do primeiro quadro, mas com certeza foi uma paisagem. Já em Vassouras (RJ) pintei mais fazendas, observando meu pai que tirava fotos e pintava a partir delas. Incentivado pelos meus pais, minha primeira exposição foi em Vassouras, nos anos 1970.

Como conseguiu desenvolver seu estilo pessoal de pintor?

Primeiro foi aprendendo com meu pai, meu grande professor, vendo a técnica dele. Depois com a crítica, no bom sentido, de minha mãe: “Isso não está bom, aquilo sim” etc.

D. Antônio é engenheiro, por formação universitária e profissional, e é artista, por vocação e gosto. Gostaríamos de saber como é que se complementam harmonicamente, no seu espírito, uma Arte e uma Ciência Exata?

Muita gente me pergunta como um engenheiro pode pintar, porque normalmente deveria ser um arquiteto... Mas não se excluem, pois pode haver grandes artistas médicos, advogados etc. Uma coisa independe da outra. Em outras palavras, dá para conciliar ambas as coisas. Mesmo trabalhando oito anos como engenheiro no programa nuclear brasileiro, nas folgas, à noite, na volta do trabalho ou nos finais de semana fazia meus quadros. Promovi várias exposições nessa época, conciliando trabalho e pintura. Uma coisa não interfere na outra. Hoje me dedico exclusivamente à aquarela. Até pouco tempo atrás trabalhava e pintava. Durante os 22 anos em que morei em Petrópolis e trabalhei no Rio, sempre arrumei tempo para a pintura. Viajei à Europa quando criança e, adulto, a primeira vez foi graças aos quadros. Trabalhei num projeto industrial pela Construtora Adolpho Lindenberg, no Rio de Janeiro, como estagiário e depois como engenheiro. Após algum tempo pedi, agradecido, desligamento e passei algum tempo na Europa com o resultado de minhas exposições, até que meu dinheiro acabasse. Quando acabou, voltei. O interessante foi que, antes de partir, representei meu pai, “que estava doente”, acompanhando minha mãe na reinauguração do órgão doado por D. Maria I à Igreja de Santo Antonio, em São José Del Rei (Tiradentes), restaurado sob o patrocínio da KWU (alemã) e aí encontrei uma equipe de engenheiros desta firma. Conversei com o diretor, que perguntou se me interessaria trabalhar no projeto nuclear. Respondi que sim, mas antes queria ir à Europa. Então ele disse: “Vá, e vamos lhe pagar um curso de alemão intensivo, porque será necessário quando voltar”. Conclusão: viajei, fiz o curso, passeei, conheci membros de minha família, tudo graças às minhas aquarelas, e na volta assinei o contrato de trabalho com a KWU.

Quando um artista é, também, príncipe, o fato de ser príncipe lhe acarreta um ônus, uma obrigação, um dever a ser cumprido em relação ao povo a que pertence? Como D. Antônio vê essa questão?

O príncipe não pode se aventurar a fazer na pintura, na música etc. algo que não seja bem feito. Se eu achasse que meus quadros não fossem bons, não os exporia. De nenhuma maneira um príncipe deve usar com ambição seu nome em proveito próprio, ou se aproveitar do nome para realizar algo que não seja de boa qualidade. Então, me acho na obrigação de, se achar que o quadro não é bom, não o expor. Isso para mim é primordial. Não posso pintar uma obra de qualquer jeito, só porque foi D. Antônio quem fez. Não posso usar meu nome para vender uma coisa que não condiz com o que acho bom. Pelo valor artístico, não sou eu que vou julgar meus quadros. Mas considero-os bons, e para mim dá muito prazer mostrar como o Brasil é bonito. Procuro retratar não só as belezas harmônicas das obras de Deus na natureza, mas também os casarões coloniais, as igrejas, os monumentos e o barroco brasileiro, ou o gótico e o românico europeu. São obras que o homem fez, pela graça de Deus. Não é para me vangloriar, mas me orgulhei da exposição que fiz em 1999 – já estavam começando as comemorações dos 500 anos do Brasil – quando fiz duas exposições em Portugal (Lisboa e Porto). Na de Lisboa o motivo era “A herança portuguesa no colonial brasileiro”. Visitou o evento uma senhora brasileira, hospedada no mesmo hotel da exposição, e me agradeceu porque em lugar nenhum via coisas bonitas do Brasil, mas só pobreza, favela, futebol e carnaval. Enfim, pude fazer uma exposição que mostrava o Brasil bonito.

Como é o modo de criação artística de D. Antônio? Como lhe vêm as ideias para pintar? Como escolhe os ângulos? Como faz para destacar os elementos da cena que, na sua concepção de artista, devem ser valorizados e receber especial enfoque?

Normalmente fotografo, depois faço a pintura em casa, mas estive no local para sentir a luminosidade e as cores. Muitas vezes viajando, passeando, se vejo um recanto bonito ou se existe uma fazenda no local, vou visitá-la para fotografar e reproduzi-la em minha próxima obra. Cidades como Ouro Preto, Tiradentes, Mariana, São João Del Rei, Sabará e várias outras ensejam belas pinturas. Mas não só aqui: acabei de voltar da Europa, onde estive para o noivado de minha filha. Em passeio pelo Vale do Loire, fiz alguns quadros. A gente sente a história da Europa cristã e católica nesses belíssimos lugares. Voltando ao Brasil, o Rio de Janeiro tem muitos lugares bonitos, como o Jardim Botânico, que retratei em vários quadros, assim como o Paço Imperial, a Igreja da Glória, o Pão de Açúcar, o Corcovado etc.

Quando D. Antônio termina de pintar um quadro, considera esgotado o assunto e logo parte para outra criação, sobre um novo tema? Ou, pelo contrário, mesmo depois de pintado um quadro, o intelecto de D. Antônio ainda fica trabalhando, à procura de variações, de eventuais aprimoramentos, de busca de novos ângulos daquilo mesmo que pintou?

Aquilo que pintei, encerrou! Alguns quadros, eu os considero bons e fico contente por tê-los pintado. Outros são especiais e passam quase a ser de estimação. Agora, refazer ou aperfeiçoar um quadro, não. Tento aperfeiçoar a técnica em outras obras, mas não as repito. Às vezes introduzo personagens, mas normalmente não retrato pessoas. Entretanto pintei D. Maria Gabriela, minha filha, quando pequena. Foi uma inspiração de momento, e considero que ficou bom. Por outro lado, já tive desafios, como o de um amigo que se casou em uma igreja colonial de Vitória, hoje totalmente cercada de prédios. Pediu-me que fizesse uma aquarela da igreja sem os prédios, como era antigamente, e uma procissão vindo para ela. Aceitei o desafio e acho que ficou bom. “Implodi” todos os prédios modernos e só deixei a igreja...

Como D. Antônio tem o hábito de considerar cada quadro que está pintando? Costuma ver cada quadro como um universo fechado, procurando atingir nele a perfeição e abstraindo de tudo o mais? Ou é mais inclinado a ver aquele quadro como uma produção a mais, a ser inserida numa obra de conjunto de tudo o que já pintou e tudo o que ainda pintará na vida?

Não faço dois ou três quadros de uma vez, mas apenas um, e fico totalmente focado nele. Entro dentro da paisagem e vou aperfeiçoando até terminar. Quando faço outro, a mesma coisa: mergulho nele. Meus quadros são reais. São localidades onde estive. Transmito o que vi, o que senti e o que admirei naquele lugar. Não faço produção em série.

Todo verdadeiro artista é, sempre, insatisfeito com o que produz, porque sempre busca superar-se, produzindo cada vez mais e melhor. No caso de D. Antônio, essa superação se dá espontaneamente, a cada passo, ou D. Antônio já tem claro, no seu espírito, a ideia do que será a Arte ideal, com a perfeição máxima que espera atingir no futuro?

Gostaria de me aperfeiçoar cada vez mais. Nunca considero meu quadro final, o melhor que já fiz. Pelo que dizem, é de boa qualidade, mas tento melhorar. Nunca fico totalmente satisfeito. Jamais vou atingir a perfeição. Perfeição só Deus. Noto em minhas exposições que os quadros de que mais gosto nem sempre são os que mais agradam ao público. Obviamente gosto de todos, mas alguns um pouco menos, e são estes às vezes os mais disputados por três ou quatro pessoas. Mas outras vezes ocorre o inverso: o de minha preferência faz mais sucesso.

Como V. A. imagina que poderia ser o quadro ideal, aquele que desejaria pintar quando tiver atingido o máximo de sua experiência e talento, como artista?

Não sei. Considero que o quadro ideal não existe, porque sempre se tem algo a melhorar. Temos também um limite. Agradeço a Deus o dom que me deu, e me esforço ao máximo para fazer bem feito. Coisas feias não sei fazer.

Quantas aquarelas, aproximadamente, pintou até o momento? Conserva fotografias, do que pintou, com vistas a mais tarde poder organizar uma seleção e editar em álbum?

Pintei entre 400 e 500 aquarelas. Não fotografá-las foi um grande erro meu. Tenho poucas retratadas. Pretendo futuramente fazer um álbum ou um livro com 100 quadros que estou pintando – já cheguei a 80 – para uma exposição em Belo Horizonte, numa galeria de arte de um marchand que faz leilões.

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Pró Monarquia é uma associação cívico-cultural sem fins lucrativos, fundada em 1990, que tem por finalidade promover, orientar e coordenar iniciativas voltadas à restauração do regime monárquico de governo no Brasil, observada a legitimidade dinástica. Assim, sob os auspícios do Chefe da Casa Imperial do Brasil S.A.I.R. o Príncipe Dom Luiz de Orleans e Bragança, realiza e incentiva atividades de estudo, formação e divulgação concernentes à Dinastia brasileira, à nossa história, valores e tradições, bem como à excelência do regime monárquico enquanto tal e à realidade nacional, de modo a obter a coesão dos monarquistas brasileiros em torno de um mesmo ideário e atrair para a causa monárquica a simpatia e a adesão dos compatriotas.